O que imediatamente nos assoma na percepção destas imagens de desenho tão claro e limpo, é a estranheza dos lugares, espaços estáticos, varridos por uma qualquer, mas muito pródiga fonte de luz.
Há nelas aquele tecnicismo isento e geométrico que vemos nos croquis de
urbanismo e onde a rara presença humana parece colocada para nos ceder
o cânon da dimensão. As linhas e os volumes sugeridos constroem sítios que
evoluem como maquetes, – arcadas, arcos, portas e átrios destacam-se das
estruturas, abrem entradas e passagens, recortam-se no céu suficientemente claro para os contornar. Há, naturalmente, um motivo forte de modernismo, mais, de essencialismo, onde as sombras são personagem – e a sua actualização fantasmática até se insinua na desfocagem. O centro da imaginação fotográfica não cabe aqui, as imagens não fixaram efemérides do acontecer. Um primeiro olhar reorganiza o sistema de formas de acordo com o enquadramento; depois os detalhes tornam-se afirmativos e tendem a reorganizar a composição. Compreendemos então que mais do que uma perspectiva urbanística, o que temos nas imagens é um olhar puramente fotográfico e muito contemporâneo que vê o mundo como uma sucessão de cenários.
É um olhar intemporal, deliberadamente estético e reestruturador de fragmentos
– esses fragmentos com que, cada vez mais, percepcionamos o que nos rodeia
porque os fotógrafos assim o inventaram para nós.
A luz sugere outros volumes, traça caminhos, sempre reutilizada como elemento, mas entendemos ao olhar aquele tríptico que elimina a composição pelo enquadramento sucessivo, que estas imagens que instauram a calmaria das sensações, também apontam para a fragilidade do próprio olhar.
É nestas fragilidades que se insinua a pulsão estética.
Teresa Siza
Representado na colecção de fotografias da Galerie du Château d’Eau (Jean
Dieuzaide), Toulouse; Centro Português de Fotografia – Porto; Teatro Nacional D. Maria II; Cinemateca Portuguesa; Câmara Municipal de Almada; Delegação de Turismo dos Açores, Biblioteca Publica e Arquivo Regional de Ponta Delgada e colecções particulares.






