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Diário de Uma Demanda

José Nuno Lamas e Valter Ventura

A paisagem é sempre uma promessa de felicidade

                                                                 Nuno Faria


    Aconteceu tudo ao mesmo tempo: a câmara fotográfica tornou-se trans-portável e o revó-lver foi inventado. Depois da Guerra da Secessão, os americanos ficaram disponíveis para explorar um imenso território, quase desconhecido, que se estendia para Oeste. Para dominar os índios tinham as seis balas de um Colt, para reclamar a paisagem tinham as chapas fotográficas impressas em albumina. Se a arma “conquistou o Oeste”, a câmara recorda-nos que ele, outrora, foi selvagem.

    Quando os pioneiros avançavam para o inóspito, seguiam na companhia de topógrafos, geólogos, fotógrafos, aventureiros e no seu encalço começava a estender-se o caminho-de-ferro: o progresso.

    Estabeleceu-se um paradigma que se foi adensando à medida que se multiplicavam as expedições para os destinos desérticos, bárbaros e exóticos.  A ideia de ser a vanguarda, de estar onde nunca ninguém esteve, ou de ver o que nunca ninguém viu, testemunha-se com uma prova (a palavra aqui tem um duplo sentido) fotográfica. Para preservar intacto um território, que em breve seria transfigurado, povoado. Para registar o lugar selvagem, que não sendo nada ainda, tem a possibilidade de vir a ser tudo: o utopos, o não-lugar, a promessa de felicidade.

    A série «Diário de uma Demanda» interpela a figura romantizada do fotógrafo enquanto explorador. E talvez essa figura tenha sido nutrida e sustentada pelos próprios: num jogo entre a realidade e a encenação, eles incluem personagens cuidadosamente dispostas no enquadramento. Conseguem mostrar a paisagem, comprovar que lá estiveram e dizer que ela lhes pertence. Estes corpos são assina-turas que – em simultâneo – também conferem a escala épica à natureza indómita.

    Os herdeiros directos desta prática vieram do Pólo Norte, do Evareste e da Lua, com fotografias onde se faziam retratar contra paisagens tão indistintas que poderiam ser outro lugar qualquer. Os herdeiros indirectos vêm de um destino turístico e dizem: “isto sou eu, em Paris”.


    José Nuno Lamas (Lisboa, 1975) licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Univer-sidade de Lisboa  e Valter Ventura (Lisboa, 1979) licenciado em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, trabalham em conjunto desde 2004. Terminaram em 2005 como bolseiros da Kodak e do Banco Espírito Santo, o Curso Avançado de Fotografia no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual. Em 2008 concluíram o 2º Curso de Fotografia do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística da Fundação Calouste Gulbenkian. Têm participado em diversas exposições colectivas das quais se destacam “Andamentos”, Escrita na Paisagem ’07, Festival de Performance e Artes da Terra, Évora (2007); “Bolseiros & Final-istas”, Ar.Co, Museu da Cidade, Lisboa (2006) e “Anteciparte”, Páteo da Galé, Lisboa (2006). Fazem parte das colecções do Centro de Arte Moderna - FCG e da Fundação PLMJ.

de  15-08  a   10-09   fotografia

Casa das Artes de Tavira, 2009, Diário de uma demanda, fotografia